Minha avó materna faleceu em 1963, eu tinha sete anos. Lembro de uma velhinha frágil com quem minha mãe e meus tios viviam preocupados. Acho incrível pensar que tenho hoje, praticamente, a mesma idade em que ela faleceu e não ver em mim a aparência dessa anciã desprotegida.

Assim era há poucas décadas, a velhice era precoce e aceita como tal. Aos 50 anos, a mulher era avó, fazendo crochê e bolo para os netos.

Os anos se passaram, as condições de vida melhoraram, assim como o desenvolvimento de recursos médicos de diagnóstico, prevenção e intervenções, que favoreceram um aumento na expectativa de vida.

De acordo com dados do IBGE, a expectativa de vida masculina passou de 33,4 anos em 1910 para 62,3 anos em 1990. A tendência de aumento se manteve até o fim do século XX: em 2000, a expectativa de vida era de 64,8 para homens e 72,6 para mulheres. Em 2019, a expectativa é de 80 anos para mulheres e de 73 anos para homens.

Então, o que fazer com tanto tempo pela frente?

Há 50 anos o Festival de Woodstock marcava uma revolução de costumes com o seu movimento de contracultura em defesa das liberdades, especialmente a sexual, do uso de drogas psicodélicas, dos movimentos negro, feminista e homossexual, além da oposição às guerras.

Os bebês de Woodstock chegaram aos 50 anos não podendo se furtar ao compromisso de provocar uma nova revolução de costumes, aquela que questiona a ideia de que não há mais espaço na sociedade para quem tem mais de 50 anos.

Isso significa uma mudança de paradigmas, especialmente em relação a dois grandes mitos: o da produtividade e o da juventude eterna.

O mito da produtividade cria pelo menos três pensamentos que causam um grande impacto em nossa vida: que temos que ser multitarefas, isto é, fazer tudo ao mesmo tempo; que é preciso estar ocupado o tempo todo e que é preciso otimizar o tempo. Nossa sociedade capitalista tem produzido muito bens, mas produzir mais e lucrar mais trouxe o desemprego e a miséria. No Brasil, a população considerada economicamente ativa está definida entre 15 e 60 anos. Isso significa que os que tem 50 anos, têm 10 anos para não serem considerados não viáveis.

O mito da juventude eterna afeta principalmente as mulheres, embora possamos observar que cada vez mais os homens vêm se submetendo a ele. Há uma infinidade de produtos e procedimentos estéticos que prometem “parar o tempo”. Não se critica aqui os cuidados com uma aparência bem cuidada, o que preocupa é uma busca obsessiva que muitas vezes produz sequelas irreversíveis no corpo e que algumas vezes podem levar à morte. Profissionais inescrupulosos e produtos sem comprovação científica ou até mesmo procedimentos proibidos, são cegamente buscados com a promessa de “solução definitiva” para se manterem jovens.

Nenhum tratamento à base de vitaminas, hormônios ou procedimentos médicos existentes hoje, são capazes de prolongar, nem mesmo a expectativa de vida, quiçá a aparência de uma juventude interminável.

A consequência desses mitos interfere diretamente na vida das pessoas sobre a forma com que elas atribuem importância a si mesmas. Se já não produzem de acordo com o mito de produtividade ou não ostentam ter vinte anos, experimentam uma falta de sentido para com a vida.

A depressão, que pode também ter causas hormonais, costuma surgir quando a pessoa se percebe presa numa vida insatisfatória afetiva ou profissional, acreditando ser incapaz de mudar porque “não há mais tempo” A aposentaria esperada se transforma num longo tédio e o casamento ruim, em um “até que a morte nos separe”. Muitos acreditam que mesmo construindo uma vida de desprazer nada podem fazer para mudá-la.

O que é preciso fazer para começar essa revolução?

A primeira coisa é começar uma revolução pessoal. É preciso mudar valores, rever crenças sobre si mesmo, sobre as pessoas e o mundo, que podem estar equivocadas há muito tempo. Mudar um paradigma não acontece do nada.  É o resultado do despertar de alguém que influencia outro, que influencia outro e assim sucessivamente, até se tornarem um modelo para toda a sociedade.

A terapia é, sem dúvida, um dos principais apoios para essas mudanças, pois ela age no sentido de ampliar o conhecimento que a pessoa tem sobre si, seus reais desejos, necessidades e potencialidades, que por razões diversas podem ter sido alienados da consciência. Mudando a visão que a pessoa tem de si mesma, naturalmente, muda-se a visão sobre tudo e todos que a cercam.

Não podemos esquecer que saúde emocional e física andam juntas e por isso é muito importante cuidar do corpo. À medida em que envelhecemos, nosso corpo requer cada vez mais atenção uma vez que é uma máquina que tem um desgaste natural. Então não fique triste porque em algum momento começará a usar medicamentos de uso contínuo. Ser saudável não é não usar remédios, ser saudável é ter qualidade de vida. Exercícios físicos são fundamentais.

Voltando à saúde emocional, o que significa, na prática, rever valores?

Nossa vida deveria ser vivida a cada momento. Deveríamos ser crianças na infância, adolescentes na adolescência, jovens na juventude e assim por diante. Por razões diversas, deixamos de experimentar alguma etapa de nossa vida e seguimos em frente, muitas vezes, acreditando que isso não causou alguma perda significativa na nossa autoimagem e na nossa autoestima, o que é um erro trágico.

Cada fase da nossa vida tem uma sabedoria a ser acumulada. Cada fase nos permite saber quais são nossas necessidades autênticas, nossas capacidades e habilidades.

Então, se você chegou aos 50 anos insatisfeito com a sua vida, saiba que deixou para trás algum ensinamento importante sobre você. Você precisa passar sua história à limpo, mas isso não significa fazer uma linha do tempo ao contrário, significa prestar atenção na sabedoria de cada fase.

A infância é fase de brincar, de aprender coisas novas, de fazer coisas que nunca fez.

Há quanto tempo você não brinca? Ou você acha que que brincadeira é coisa de criança? Há quanto tempo você não aprende algo novo ou faz algo diferente do que você conhece?

O brincar do adulto pode não ser igual ao da criança, mas estamos falando da mesma diversão espontânea. Dance, cante no karaokê, jogue cartas, vá ao parque, vá ao circo, shows, faça palavras cruzadas. Não fique dizendo que não tem dinheiro porque existem muitas diversões gratuitas pela cidade. Pode ser que não estejam do lado da sua casa, mas criança não se preocupa com zona de conforto.

Aprenda algo; um idioma, artesanato, natação, corte e costura, dirigir, se quiser volte à escola. Se é falta de dinheiro, aprenda no Youtube, tem aula de tudo lá. Faça algo novo: visite um lugar que você ainda não foi, seja um turista na sua cidade; coma uma comida que você nunca comeu; ligue em outros canais de TV e assista a programas diferentes ou desligue a TV e leia um livro, faça um caminho novo, faça trilha.

A adolescência é a fase do desafio, do questionamento, do inconformismo.

Quanta coisa na sua vida é aceita em silêncio? Será que você se transformou num “engolidor de sapos”?

O inconformismo do adolescente é essencial para que ele desenvolva a sua capacidade de defender seu ponto de vista, ainda que suas ideias possam modificar-se com o tempo, esse aprendizado será valioso por toda a sua vida.

Você sabe como o adolescente consegue força para se opor?  Estando em grupo, se reunindo aos seus iguais. Como você pode resgatar sua adolescência? Duas coisas podem te trazer segurança para travar sua luta pessoal, a primeira com certeza é o suporte de uma terapia e a segunda é buscar “sua turma”. Seus parceiros de ideias podem estar na academia, no seu curso, no seu grupo de dança, no grupo de vôlei ou circuito de praia, nos grupos virtuais.

Faça algo que você considere arriscado: andar numa tirolesa, saltar de um trampolim, pular de paraquedas, voar de asa delta, cantar ou dançar em público. Experimente aquele frio na espinha tão curtido pelos adolescentes. Isso vai fazer você se sentir poderoso.

A sabedoria da juventude é a de aprender a ser uma pessoa interessante, a de saber como é amar e ser amado.

Você se acha uma companhia agradável? Você curtiria estar com você em qualquer lugar? Sua vida afetiva te traz insatisfação ou sofrimento?

Se você não se acha uma pessoa interessante, tem alguma ideia do porquê? O que você acha que te falta: autoconfiança, informação, experiência? Se você sabe e não faz nada com isso ou se não sabe, voltamos à urgência da terapia.

E sua vida afetiva, você diz que não tem sorte, que tem “dedo podre” ou que o amor não é para você, sempre é possível rever essa crença cruel, não há idade para amar e ser amado. Indo aos lugares ou fazendo coisas que você gosta, você vai conhecer pessoas que vão ampliar seu universo social. Não tenha medo dos sites de relacionamento, existem muitos, para todo tipo de interesse, tenha apenas atenção para a sua segurança.

Qual é a sabedoria da maturidade? É a de poder olhar para trás e ver o que valeu a pena, o quanto nossa cultura social ou familiar nos enganou que seríamos felizes se fizéssemos dessa ou daquela forma e também o que deu certo. A vantagem da maturidade é a de saber que ninguém precisa nos dizer muita coisa, nós experimentamos.

Tendo dito tudo isso, como aproveitar a sabedoria da maturidade?

Você sabe que aquela história de multitarefas e ocupação do tempo são uma grande mentira. Produza, mas produza aquilo que te faz feliz. Resgate a sabedoria de todas as fases da sua vida. Não procure aprisionar o tempo tentando manter-se sempre jovem, ele vai te vencer de qualquer forma. Use-o a seu favor vivendo tudo que você merece.

Essa é a revolução dos 50 anos: ser feliz.